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“Os trabalhos apresentados em “De Dentro para Fora”, de Edna Kauss, têm seu início ao se posicionar no quadro de uma genealogia bastante ampla: em primeiro lugar, aquele da escultura que já não se satisfaz com a volumetria e que passa a limitar o espaço tridimensional a partir de planos descontínuos, definidos por linhas (da assemblage cubista a Waltercio Caldas); em segundo lugar, à negação de um objeto de arte fechado sobre si mesmo e imediatamente perceptível como objeto (de Dadá à arte conceitual, embora Edna Kauss não pretenda, em definitivo, se alinhar neste campo – ela apenas o reconhece como ativo); por último, pelo uso da luz artificial como elemento construtivo do trabalho (no campo internacional, manobra que remete a Dan Flavin e a François Morellet; no Brasil, de Teresa Simões a Maurício Bentes).

 

Quanto ao primeiro ponto, ele está na origem da maior parte do que nos interessa no campo da tridimensionalidade contemporânea, e que torna problemático (se não obsoleto) o velho conceito de escultura e definitivamente arremessa ao passado a ideia de estatuária que serviu de modelo por milhares de anos. Embora o tema ainda seja insuficientemente teorizado, ele já foi pelo menos bastante indicado. O segundo, infelizmente pouco compreendido nos círculos mais amplos, aponta para a mistificação que confunde a obra de arte com o objeto que dela é portador e a reduz a uma materialidade que em nada a beneficia. Por fim, a lâmpada como suporte poderia dar lugar a uma série de considerações, como o uso do material industrial na arte (tão remoto quanto as primeiras propostas construtivas) ou a transformação do artista em projetista (em oposição ao seu papel tradicional de autor privilegiado).

 

É na intercessão simultânea desses elementos que Edna Kauss trabalha, em um esforço de atualização de recursos artísticos que ainda estão longe de haverem sido esgotados. Depois de haver realizado um percurso em que a massa escultórica dava o tom da obra (ainda que frequentemente reduzida a planos bidimensionais articulados no espaço tridimensional), Edna passa a depender muito menos da matéria (sim, há uma base material sólida de onde brota a luz, mas esta não é vista – melhor, não precisa ser vista – pelo espectador, reduzida que está à emissão de luz) e muito mais das condições sob as quais o trabalho é percebido. Com tal manobra, a ênfase recai não mais sobre um objeto, mas sobre a situação em que o espectador se encontra, indicando claramente a impossibilidade de atribuir às características físicas da obra a origem da experiência estética: bem mais elementos contribuem para esse efeito, a obra sendo apenas um deles, e nem sempre aquele determinante.”

 

REYNALDO ROELS JR., historiador, crítico de arte e curador do MAM-Rio (1951-2009), setembro de 2008

 

 

“Edna é uma artista com a rara sensibilidade de unir aptidão gráfica a uma acuidade técnica incomum.

 

Trabalhando no espaço real, cria linhas de luz em que as cores diversificadas ora estabelecem um ritmo acelerado, ora o reduzem a uma tranquilidade clássica.“

 

IOLE DE FREITAS, artista plástica e professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, setembro de 2008

 

 

“Uma linha contínua serpenteante em ziguezagues animando o espaço, ou apenas segmentos? Ou ainda outros numa sucessão cromática? São vários os níveis de percepção e realidade simultâneos, uma poesia muda, como nos diz Leonardo. Citemos dois versos de Júlio Castañon Guimarães do poema Extravio: ‘(quando luz indecisa / ou fratura do horizonte?)’. Com simplicidade Edna não questiona nada (fora os modismos). Apenas nos faz pensar, poética e plasticamente, nesse e em outros trabalhos, com uma intensa profundidade.”

 

JOSÉ MARIA DIAS DA CRUZ, artista plástico, professor de pintura, especialista em cor, setembro de 2008